O navio rapidamente se afastou das cercanias de São
Miguel do Guamá, Os ventos eram muito fortes e a correnteza formidável.
Na praça de comando Fernando gritava para o
timoneiro as coordenadas e o Suplica ainda estava meio atarantado, e, como que
embevecido pelo ambiente que ora se lhe apresentava completamente desconhecido
e impressionante, era um barco muito grande!, vários andares, luz elétrica a
bordo, música, tinha até televisão, que o Suplica só tinha visto quando foi com
a Mulata lá na casa do Dico Lopes, e isso de longe!, mas agora era tudo de
pertinho!, tinha muita gente a bordo, quartos, muitos quartos! Um povo bem
vestido, parece até que estavam indo pro círio de Nazaré!. Pois não era! Era
uma gente esquisita, falava umas palavras que o Suplica não entendia, não tinha
ninguém que o Suplica conhecesse, ninguém!, reparou, reparou, viu uma mulher
seca lá longe foi atrás, pensava que era a Mulata, mas não era. Veio um sujeito
vestido de branco com um andar esquisito, parecia que o sapato se arrestava no
soalho pra perto dele com uma bandeja e ofereceu um copo de bebida que o
Suplica aceitou, e era suco de laranja, isto foi legal, porque ele já estava
sentindo muita sede, bebeu rápido e pediu para o moço um copo de água, ficou
alegre, o japonês entendeu o que ele falava, o que lhe deu uma vontade de fazer
perguntas, mas o japonês foi atender outras pessoas, e ele não quis pagar mico.
Então o Suplica resolveu explorar aquele barco tão
grande, que mais parecia uma cidade! Tinha tudo! Mulheres muito bonitas passeavam
pelo salão que estava em festa, o Suplica não sabia porque?. Também não
perguntou! Desceu uma escada, outra escada, mais outra, outra até que chegou
num lugar onde os motores trabalhavam, motores muito grandes, davam uns dez do
que estava instalado no Correio de Irituia, o barco do Almeida que fazia linha
pra Belém, as peças do motor brilhavam de tão limpas e ele sentia na fisionomia
dos marinheiros um certo orgulho que ele compreendia muito bem.
Visitou o restaurante, a sala de jogos, tinha até uma piscina naquele barco!, o
Suplica não sabia para que? Uma piscina num barco! Ele que estava acostumado a
tomar banho nas águas da Mãe do Rio! Pra
que uma piscina num barco?.
Então o Suplica
resolveu subir para onde estava o Fernando, o piloto que agora que ele
estava conhecendo direito, era um sujeito de uns 40 anos talvez, não era alto,
bem apessoado, falava e ele compreendia, mas, quando falava com aquela gente da
língua esquisita e ele não compreendia nada. O Suplica pensou até que estivesse
sonhando, porque vinham nas sua
lembranças certas imagens, da Mulata, do Mestre Verequeti, do Padre Marino.....
Ou será que aquelas imagens é que eram o sonho ?. Queria perguntar para o Fernando, mas percebeu que o Fernando no
trabalho era muito chato, então ficou quieto.
Deu uma espiadinha para o lado de fora do barco e
ficou assustado!
A água era verde, parecia até aquela da garrafa de
anizeta, um tipo de cachaça que ele tinha bebido na casa do mestre Nestor, mas era muita água, tinha umas ondas que
subiam, subiam, mais alto do que o barco, e olha que o barco era muito alto! E
ele olhava para todo lado e só via água,
ai ele perguntou para um dos tripulantes, se não tinha perigo do barco
afundar, e o marinheiro respondeu que o NAVIO era muito seguro, e disse:
Não chame mais de barco para o nosso navio, o
comandante não vai gostar! Ora, é uma desconsideração chamar de barco para este
tremendo Vaso que singra os sete mares, já navegou pelo mundo todo, conhecido e
desconhecido!
E se afastou. E o Suplica ficou com vergonha de
perguntar mais alguma coisa para alguém. Ficou quieto, foi pro quarto, que o
marinheiro disse que era cabine, se deitou, olhou pro teto branco do navio e
adormeceu.....
Foi celebrada uma missa no arraial de Santa Luzia, a
banda do mestre Eugênio estava presente no coro da Igreja, e entoava ....Queremos Deus um povo
aflito....., e o padre Marino falava em latim as ultimas preces, e o Manoel do
padre lá na sacristia já estava pegando
o dinheiro dos batizados, a Mulata estava fazendo a comida do padre lá no chalé
e o Baião já estava porre lá na taberna do Mário Pacheco, e o mestre Dico Lopes
estava se preparando para fazer um discurso político, ele que agora era
vereador lá em Irituia!.
“Seguinte, nun su puliticu mas como vocês me
elegeram vou honrar o dinheiro que recebo, nem sequer é dinheiro que se possa
dizer, mas vou trabalhar para que vocês, que são o meu povo; vocês que são os
meus amigos, que votaram em mim, que me colocaram lá, nunca se arrependam! Vou
fazer a estrada chegar aqui no arraial. E vocês vão me ajudar, se não tiver
máquina, que a prefeitura nunca tem, nós vai fazer no cabo da enxada, nos
compra gurijuba e a Mindoca com a comadre Mulata faz uma feijoada, e a nossa
estrada sai! Ah! Se sai, então....
Ai o povo não deixou o Dico Lopes terminar o
discurso, carregaram ele no ombro e percorreram as ruas da vila e cantavam, e
gritavam, e, e, ah, sim bebiam cachaça