- Histórias da minha terra
II.
Mãe Candoca
continuava dançando, bebendo cachaça fumando cachimbo e batendo seu maracá na
beira do Rio Guamá, já com toda a roupa
molhada pelas águas violentas que chegavam com barulho ensurdecedor da
Cachoeira de São Miguel ali junto. Mas tia Candoca não arredava pé, há mais de
12 horas não comia nada, não parava de
dançar nem de fumar, nem de beber cachaça nem de bater seu maracá. Sacudia a
pena de arara vermelha na ponta da sua vara
sagrada de bambu e cantava seu ponto...
É do mar e é
da terra..
E é no balanço do mar.
É do rio e da floresta
E é no balanço do mar.
É de Oxoce e
de Xangô
E é do mar
É a cabocla
Janaina
Ela é do mar
Vem mostrando seus encantos
E é do
mar...............................
E seguia
firmando seu ponto e os filhos de santo respondendo: E é no balanço do mar... De vez em quando o cambona defumava
mãe Candoca, e a Filha de santo mais velha lhe passava cachaça na testa, e o
barulho das águas da cachoeira se misturava naquela toada marcada pelos
atabaques.
De repente
chega lá o Miguelão, delegado da polícia
de São Miguel, ele queria saber o que tinha acontecido com o Suplica, que tinha
vindo para os trabalhos, pulado nas águas da cachoeira, já faziam quase doze
horas e não aparecia, nem o corpo, ele queria explicação.
-“Suncê é qui
é otoridade e a mim é qui mi pregunta? Janaina pode te garanti que quando
cumpletá 24 horas ele vem pra riba! Se suncê
quizé ir no traz dele ele istá lá, imbaxo na cachoêra, mas pra suncê ir
lá, tem qui si incantá premero! Vai incará?.
I ela é do
mar.
Ela é do
mar....
“ Os parentes
já estão procurando o corpo rio abaixo e rio acima, mas eu vou voltar aqui nove
horas, ah se o Suplica não aparecer! Eu boto vocês na cadeia!. Eu boto!” “
depois, nem adianta vocês me afrontar
com o Júlio Bastos que não vai funcionar! Não vai não!”
E os trabalhos
continuavam, e a cachaça corria solta, mas, mesmo lá, só a Mãe Candoca que
incorporada não parecia preocupada, os freqüentadores, até os filhos de santo,
já não mostravam o mesmo otimismo de horas antes. O rio caudaloso, a força das
águas na cachoeira, e a maneira como o Suplica
se jogou nas águas, não colaboravam para que se esperasse um final
agradável.
O Suplica,
desde bem jovem sempre apresentou um distúrbio pelo menos esquisito. Estava conversando normal ou em
outra atividade, as vezes até comendo, quando de repente se jogava no chão e
saia rolando em direção ao rio mais próximo – ele morava junto do rio Mão do
Rio- lá, levava horas nadando geralmente pelo fundo do rio, passava por
espinheiros, urtigas, e, quando voltava a si, não apresentava nenhum ferimento,
parecia acordar de um profundo sono, pedia um copo de água, e, pronto estava
normal.
Já tinham
procurado vários médicos lá em Belém, tomado remédios da botica, visitado
centro espírita, se consultou até com o Rafaelzinho lá do Lar de Maria, médium
bem conceituado que tinha até um programa
no Rádio Clube, mas o
Suplica continuava com os ataques.
Ele era
acostumado a pescar sempre só, mas ensinou o Batista a pegar jacundá , O
Batista vinha pilotando a canoa e ele riscava a água com uma pena de arara
vermelha na ponta de um caniço, e o peixe pulava dentro da canoa, um dia pulou
também uma cobra, e era de bom tamanho, e o Batista dizia que tinha o olho
verde, muito verde, parecia até ter fisionomia duma boneca, mas o Batista não
estava nada interessado em admirar olho de cobra, então pegou o remo e largou em
cima da cobra, o Suplica se jogou entre ele e a cobra, e o remo pegou bem no
ombro do Suplica que ficou muitos dias machucado. Quando se levantou estava com a cobra no pescoço, que mais
parecia um gato de estimação. Ele abaixou o braço e ela deslizou por ele para a água. O Batista jura que viu lágrimas
nos olhos do Suplica.
Todas as vezes
que ia tomar banho no rio, sempre voltava com uma enfiada de peixes, só que ele não levava caniço nem nada, sempre
foi um bom pescador, quando ia só, de parceria não tinha tanta sorte
assim, era panema.
Mas a
seqüência de ataques deixava a família preocupada, tinham medo que morresse
afogado, por isso, sempre procuraram ajuda de muitas maneiras, beberam de
muitos cálices: espiritismo, curandeiros, banho de sipó pucá, defumação de
casca de cedro, usava um escapulário de alho macho feito pela Mulata consagrado
pelo bispo na festa da Padroeira, o bispo gritava, levantem seus objetos, e a
Mulata levantava o escapulário, mandaram até o padre Marino benzer ele, e nada!
Foi quando o Furtado disse que era visinho de uma experiente muito boa que
morava defronte de São Miguel, tinha vindo duma aldeia, que ele não sabia qual,
mas já tinha curado muita gente. Até o Didi que sofria muitos anos de
hemorróidas, já havia sido desenganado pelo doutor Fonteles, e ela curou!.
Dizem até que curou o Padre Ângelo que tinha doença do peito, e que ficou bom.
Não me acreditem, mas há alguém que jura ter visto nas caladas o reverendo
atravessar a ponte com o vestido de
chita da Cotinha. Não me acreditem! Padre não vai em terreiro, ou vai?. E
porque tinha de vestir uma saia de chita?
Aí a Mulata levou ele para uma consulta.
Mãe Candoca deixou o giráu onde estava cuidando duns peixes e ,
diz a Mulata que ela se jogou, ou melhor, foi arremessada para de baixo de um
coqueiro onde tinha a casinha do Tranca Rua, com uma vela vermelha queimando,
Rapidamente apareceu uma moça com uma garrafa de cachaça que começou logo a passar na Mãe Candoca,
colocou um manto de pano verde em cima dos ombros, levou lá pra um salão todo
cheio de bandeirinhas, vermelhas, azuis, verdes pretas brancas, todas as cores,
em cada canto do salão tinha uma vela acesa, e a cambona acendeu mais quatro, e
defumou com um turíbulo feito de lata de
leite ninho a Mãe Candoca, agora já sentada no seu sofá de sipó titica, que
falou pra cambona:
- Não te disse
que ele vinha?.
Mãe Candoca se
levantou do sofá de vime, foi no altar, beijou a fita do Ochoce, a de Xangô,
pegou um manto que estava no ombro da imagem de Yemanjá, veio em direção do
Suplica, colocou no ombro dele e falou:
-
Se sabe qui tem uma missão pra cumpri, nun sabe mu
firo?
E o Suplica
balançou a cabeça.
-Intão suncê
marca cum meu cavalo .
-E Janaina vai
simbora
e ela vai pro mar
-E é no
balanço do mar
e ela é do mar.
A Mulata não entendeu
porque depois que a médium cumprimentou o Suplica, bateram peito com peito,
falaram “saravá”, o encantado se deitou nos pés do Suplica e ele a levantou,
como se quisesse colocar no colo, e naquela hora, a Mulata jura que sentiu
gosto de água salgada na boca, mas o rio Guamá é água doce, aconteceu um vento
tremendo, e o Santo largou Mãe Candoca.
O cambona veio rápido passar
cachaça na testa da médium que parecia desacordada, defumou, e mãe Candoca
parece que despertava de um profundo sono, olhou todo mundo em volta,
cumprimentou a Mulata, pediu um copo de água,ofereceu café, e pediu para o
cambona trazer a espada de São Jorge ,
que era uma toalha de lamê vermelho, foi lá para o altar, se ajoelhou, bateu
com a cabeça no chão, fez lá uns salamaleques, pediu um defumador, chamou
o Suplica, pediu para que Não fechasse
os olhos e o defumou.......
Passou cachaça na mão dele, fechou os olhos, entoou uma canção, tipo
lamento e se incorporou novamente.
O encantado disse ser um guia chamado Seu Tupinambá e que na próxima
sexta feira, dia de Xangô estaria esperando por ele naquela tenda, e que um
guia experiente, o marinheiro Fernando estava ali junto para acompanha-lo na
missão, ele não ia, porque era um índio da floresta, e só tomava banho nas noites
de São João, e a missão do Suplica era visitar D. Janaina no seu palácio que
ficava debaixo da grande cachoeira, então nada melhor que um marinheiro para
acompanhá-lo, viesse preparado, não se unisse com cunhã 72 horas antes, tem
tomasse marafo, na sua saída de casa acendesse uma vela pro anjo da guarda, uma vela branca, e outra
pra Maria Santíssima, não pra Yemanjá, para Maria Santíssima mesmo, a mãe
do Homem da Cruz, e que isto era muito importante para que não se esquecesse. Falou que o cavalo, no
caso mãe Candoca, a partir daquela hora não podia mais colocar alimento sólido,
nem bebida, só água, e, só se unir com o perna de calça depois das 10 horas da
noite de sábado quando terminava a missão do Suplica, ai, sim, todos podiam
fazer festa, até a Mulata.!
Se despediu, cantou seu ponto e subiu.
A cidade estava em
festa. A iluminação imponente do colégio São Miguel Arcanjo, debruçado sobre as águas do rio
Guamá, refletiam um jogo maravilhoso acompanhado pelo balanço das águas da
grande cachoeira, todas as cores do arco íris, e mais algumas, azul, vermelho,
verde, até lilás que era a cor da moda,
contribuíam na beleza das homenagens que se prestava ao padroeiro. No
arraial, vendiam comida típica, tacacá, maniçoba, caruru, assai com pirarucu
frito churrasquinho e cerveja, muita cerveja, no coreto j
A tinha se apresentado o Pinduca dançando carimbo e mestre Verequeti e
a banda do Mindico, que com o seu saxofone fazia a festa no coreto. Ai,
apareceu perto da praça um carro preto.
Dá licença, dá licença, deixa o deputado passar!
E ele passou!, era o Jader Barbalho e o prefeito Hélio Papudinho!
Meus eleitores, eu não poderia deixar de comparecer nesta cidade, na
grande festa do padroeiro, e nem podia deixar de prestigiar o .......
E os sinos começaram a tocar, era o Padre Ângelo convidando para e a
última noite de novena, e o povo do arraial deixou o deputado com o seu
discurso e seguiu, era muita gente, a
polícia militar disse ser umas 800 pessoas,
mas, um político do lado do
deputado calculou de acordo com a sua experiência mais de 2 mil, e seguiu, não
no rumo da igreja, mas começou a seguir pela Belém- Brasília no rumo do rio Guamá, na direção da
casa da Mãe Candoca, na frente o Pinduca
dançava e cantava o carimbo:
Gavião pegou a pomba.
Pegou a pomba no ninho.
É pena, meu mano e pena,
É pena de passarinho.
E o Pinduca se sacudia na
estrada e o povo acompanhava dançando e respondendo:
É pena meu mano, é pena
É pena de passarinha.
.
Atravessaram o rio, viraram para a direita, e seguiram para o terreiro
da Mãe Candoca, todo enfeitado de bandeirinhas, e a negrada suada nos
atabaques, vieram receber o Pinduca e botaram o mestre Verequeti na frente do
congá, que também entoou um ponto, e o povão delirava no som frenético do
carimbo, tendo a lua e as águas da cachoeira como testemunhas,
III
Diversas entidades do mundo encantado já haviam visitado o terreiro
nessa noite na cabeça da Mãe Candoca; Cabloca
Jurema, Jarina, Seu Tupinambá, até duas crianças encantadas, Cosme e
Damião, que quase acabam um kilo de pirulito, e agora, Verequeti cantava seu
ponto e Mãe Candoca atuada estava
sentada na sua cadeira de Vime, tinha recebido seu Chapéu de couro, e estava
dando consultas.
O Suplica, estava quieto sentado numa cadeira vestido todo de branco,
calça branca, sapato branco, meia branca, uma camisa branca manga comprida que
a Mulata trouxe emprestada do Toninho do
Areia, e um cinto feito com uma tira de setim azul, e o chapéu de panamá do
mestre Nestor, por causa disso, a Maroquita tinha se desentendido e já queria
bater na Mulata, porque estava achando o traje do Suplica esquisito, ela não
concordava do Suplica andar nessas coisas de macumba, ela que era cantora da
Igreja da Piedade, aluna da professora Órfila, jamais iria concordar com esse
tipo de comportamento, e acusava a Mulata de ter trazido o Suplica pro
terreiro, ainda mais com aquela roupa ridícula, que mais parecia um maricas.
Verequeti cumprimentou todo mundo, saravou quem era de sarava,
abençoou quem era de abençoar, abraçou o Mindico, beijou a bochecha da Mulata,
ralhou com a Maroquita e desceu para onde estava o Pinduca, Mãe Candoca se levantou, foi no altar, cantou
o ponto de despedida do Chapéu de Couro, e tremeu, tremeu muito, tremeu mais, e
cantou:
Marinheiro, marinheiro,
Quem te ensinou ,
quem te ensinou a nadar,
Foi o tombo do navio,
Ou o balanço do mar.
Aquela gente diz que sentiu gosto de água salgada na boca, só que o
que eu sei, é que o Marinheiro Fernando chegou....
A cambona defumou, trouxe uma espada azul com uma âncora desenhada com
linha branca e um quepe branco de marinheiro...
O encantado cumprimentou a
cambona e foi também cumprimentar a Serafina, que era a vidente, dizem que ela
vê os encantados, ensinou um remédio pra sua dor de cabeça, falou pra
Mulata não esquecer de alimentar o Tajá, e se dirigiu para o Suplica,
Saravou e perguntou:
Como é marujo tás pronto? Eu só vim aqui para atender o Índio Velho,
mas já vou me embora, que o meu negócio é ofichóa, tirou o chapéu de panamá da
cabeça do Suplica e colocou na cabeça, e na cabeça do Suplica pôs o quepe de
marinheiro, tirou a sua espada de setim azul, e colocou no pescoço do Súplica,
recebeu outra de cor verde das mão da cambona, abraçou a Serafina e cantou seu ponto de despedida, encostou a
testa na testa do Suplica, e tornou a tremer, muito mais do que na chegada,
nessa hora, desceu sobre São Miguel um tremendo aguaceiro, Mãe Candoca tremia,
o Suplica começou a tremer também, e Mãe Candoca parecia ter desmaiado nos
braços da cambona e da Serafina, e o Suplica, como que voou. Voou mesmo, por
cima do parapeito da casa, e foi cair lá no meio do rio Guamá. Eram dez horas
da noite, sexta feira, dia 13,
a lua cheia estava na altura das onze, mas chovia,
chovia a cântaros em São
Miguel do Guamá.!
Mãe Candoca se recobrou, tornou a se atuar, foi defumada pela cambona,
bebeu uma cuia pitinga cheia de cachaça,
repetiu, pegou sua pena e seu maracá, desceu a ladeira pra beira do rio, mas
antes disse pro pessoal que fazia sereno:
Assim como ele foi, assim ele volta. Saravá Ogum!
Km.40, abril de 2.010

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José Lopes Tavares
O “V