sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Histórias da Mulata.


                           - Histórias da minha terra
II.

Mãe Candoca continuava dançando, bebendo cachaça fumando cachimbo e batendo seu maracá na beira do Rio Guamá,  já com toda a roupa molhada pelas águas violentas que chegavam com barulho ensurdecedor da Cachoeira de São Miguel ali junto. Mas tia Candoca não arredava pé, há mais de 12  horas não comia nada, não parava de dançar nem de fumar, nem de beber cachaça nem de bater seu maracá. Sacudia a pena de arara vermelha na ponta da sua vara  sagrada de bambu e cantava seu ponto...
É do mar e é da terra..
                 E é no balanço do mar.
 É do rio e da floresta
                   E é  no balanço do mar.
É de Oxoce e de Xangô
                    E é do mar
É a cabocla Janaina
                     Ela é do mar
Vem  mostrando seus encantos
                   E é do mar...............................
E seguia firmando seu ponto e os filhos de santo respondendo: E é no balanço  do mar... De vez em quando o cambona defumava mãe Candoca, e a Filha de santo mais velha lhe passava cachaça na testa, e o barulho das águas da cachoeira se misturava naquela toada marcada pelos atabaques.
De repente chega lá o Miguelão,  delegado da polícia de São Miguel, ele queria saber o que tinha acontecido com o Suplica, que tinha vindo para os trabalhos, pulado nas águas da cachoeira, já faziam quase doze horas e não aparecia, nem o corpo, ele queria explicação.
-“Suncê é qui é otoridade e a mim é qui mi pregunta? Janaina pode te garanti que quando cumpletá 24 horas ele vem pra riba! Se suncê  quizé ir no traz dele ele istá lá, imbaxo na cachoêra, mas pra suncê ir lá, tem qui si incantá premero! Vai incará?.
I ela é do mar.
Ela é do mar....
“ Os parentes já estão procurando o corpo rio abaixo e rio acima, mas eu vou voltar aqui nove horas, ah se o Suplica não aparecer! Eu boto vocês na cadeia!. Eu boto!” “ depois, nem adianta vocês  me afrontar com o Júlio Bastos que não vai funcionar! Não vai não!”
E os trabalhos continuavam, e a cachaça corria solta, mas, mesmo lá, só a Mãe Candoca que incorporada não parecia preocupada, os freqüentadores, até os filhos de santo, já não mostravam o mesmo otimismo de horas antes. O rio caudaloso, a força das águas na cachoeira, e a maneira como o Suplica  se jogou nas águas, não colaboravam para que se esperasse um final agradável.
O Suplica, desde bem jovem sempre apresentou um distúrbio pelo menos  esquisito. Estava conversando normal ou em outra atividade, as vezes até comendo, quando de repente se jogava no chão e saia rolando em direção ao rio mais próximo – ele morava junto do rio Mão do Rio- lá, levava horas nadando geralmente pelo fundo do rio, passava por espinheiros, urtigas, e, quando voltava a si, não apresentava nenhum ferimento, parecia acordar de um profundo sono, pedia um copo de água, e, pronto estava normal.
Já tinham procurado vários médicos lá em Belém, tomado remédios da botica, visitado centro espírita, se consultou até com o Rafaelzinho lá do Lar de Maria, médium bem conceituado que tinha até um programa   no Rádio Clube,  mas o Suplica  continuava com os ataques.
Ele era acostumado a pescar sempre só, mas ensinou o Batista a pegar jacundá , O Batista vinha pilotando a canoa e ele riscava a água com uma pena de arara vermelha na ponta de um caniço, e o peixe pulava dentro da canoa, um dia pulou também uma cobra, e era de bom tamanho, e o Batista dizia que tinha o olho verde, muito verde, parecia até ter fisionomia duma boneca, mas o Batista não estava nada interessado em admirar olho de cobra, então pegou o remo e largou em cima da cobra, o Suplica se jogou entre ele e a cobra, e o remo pegou bem no ombro do Suplica que ficou muitos dias machucado. Quando se levantou  estava com a cobra no pescoço, que mais parecia um gato de estimação. Ele abaixou o braço e ela deslizou por ele  para a água. O Batista jura que viu lágrimas nos olhos do Suplica.
Todas as vezes que ia tomar banho no rio, sempre voltava com uma enfiada de peixes,  só que ele não levava caniço nem nada, sempre foi um bom pescador, quando ia só, de parceria não tinha tanta sorte assim,  era panema.
Mas a seqüência de ataques deixava a família preocupada, tinham medo que morresse afogado, por isso, sempre procuraram ajuda de muitas maneiras, beberam de muitos cálices: espiritismo, curandeiros, banho de sipó pucá, defumação de casca de cedro, usava um escapulário de alho macho feito pela Mulata consagrado pelo bispo na festa da Padroeira, o bispo gritava, levantem seus objetos, e a Mulata levantava o escapulário, mandaram até o padre Marino benzer ele, e nada! Foi quando o Furtado disse que era visinho de uma experiente muito boa que morava defronte de São Miguel, tinha vindo duma aldeia, que ele não sabia qual, mas já tinha curado muita gente. Até o Didi que sofria muitos anos de hemorróidas, já havia sido desenganado pelo doutor Fonteles, e ela curou!. Dizem até que curou o Padre Ângelo que tinha doença do peito, e que ficou bom. Não me acreditem, mas há alguém que jura ter visto nas caladas o reverendo atravessar a ponte com o vestido  de chita da Cotinha. Não me acreditem! Padre não vai em terreiro, ou vai?. E porque tinha de vestir uma saia de chita?
Aí  a Mulata levou ele para uma consulta.
Mãe Candoca deixou  o giráu onde estava cuidando duns peixes e , diz a Mulata que ela se jogou, ou melhor, foi arremessada para de baixo de um coqueiro onde tinha a casinha do Tranca Rua, com uma vela vermelha queimando, Rapidamente apareceu uma moça com uma garrafa de cachaça  que começou logo a passar na Mãe Candoca, colocou um manto de pano verde em cima dos ombros, levou lá pra um salão todo cheio de bandeirinhas, vermelhas, azuis, verdes pretas brancas, todas as cores, em cada canto do salão tinha uma vela acesa, e a cambona acendeu mais quatro, e defumou  com um turíbulo feito de lata de leite ninho a Mãe Candoca, agora já sentada no seu sofá de sipó titica, que falou pra cambona:
- Não te disse que ele vinha?.
Mãe Candoca se levantou do sofá de vime, foi no altar, beijou a fita do Ochoce, a de Xangô, pegou um manto que estava no ombro da imagem de Yemanjá, veio em direção do Suplica, colocou no ombro dele e falou:
-          Se sabe qui tem uma missão pra cumpri, nun sabe mu firo?
E o Suplica balançou a cabeça.
-Intão suncê marca cum meu cavalo .
-E Janaina vai simbora
  e ela vai pro mar
-E é no balanço do mar
 e ela é do mar.
A Mulata não entendeu porque depois que a médium cumprimentou o Suplica, bateram peito com peito, falaram “saravá”, o encantado se deitou nos pés do Suplica e ele a levantou, como se quisesse colocar no colo, e naquela hora, a Mulata jura que sentiu gosto de água salgada na boca,  mas  o rio Guamá é água doce, aconteceu um vento tremendo, e o Santo largou Mãe Candoca.
O cambona veio rápido  passar cachaça na testa da médium que parecia desacordada, defumou, e mãe Candoca parece que despertava de um profundo sono, olhou todo mundo em volta, cumprimentou a Mulata, pediu um copo de água,ofereceu café, e pediu para o cambona  trazer a espada de São Jorge , que era uma toalha de lamê vermelho, foi lá para o altar, se ajoelhou, bateu com a cabeça no chão, fez lá uns salamaleques, pediu um defumador, chamou o  Suplica, pediu para que Não fechasse os olhos e o defumou.......
Passou cachaça na mão dele, fechou os olhos, entoou uma canção, tipo lamento e se incorporou novamente.
O encantado disse ser um guia chamado Seu Tupinambá e que na próxima sexta feira, dia de Xangô estaria esperando por ele naquela tenda, e que um guia experiente, o marinheiro Fernando estava ali junto para acompanha-lo na missão, ele não ia, porque era um índio da floresta, e só tomava banho nas noites de São João, e a missão do Suplica era visitar D. Janaina no seu palácio que ficava debaixo da grande cachoeira, então nada melhor que um marinheiro para acompanhá-lo, viesse preparado, não se unisse com cunhã 72 horas antes, tem tomasse marafo, na sua saída de casa acendesse uma vela  pro anjo da guarda, uma vela branca, e outra pra Maria Santíssima, não pra Yemanjá, para Maria Santíssima mesmo, a mãe do  Homem da Cruz,  e que isto era muito importante para  que não se esquecesse. Falou que o cavalo, no caso mãe Candoca, a partir daquela hora não podia mais colocar alimento sólido, nem bebida, só água, e, só se unir com o perna de calça depois das 10 horas da noite de sábado quando terminava a missão do Suplica, ai, sim, todos podiam fazer festa, até a Mulata.!
Se despediu, cantou seu ponto e subiu.


A cidade estava em festa. A iluminação imponente do colégio São Miguel  Arcanjo, debruçado sobre as águas do rio Guamá, refletiam um jogo maravilhoso acompanhado pelo balanço das águas da grande cachoeira, todas as cores do arco íris, e mais algumas, azul, vermelho, verde, até lilás que era a cor da moda,  contribuíam na beleza das homenagens que se prestava ao padroeiro. No arraial, vendiam comida típica, tacacá, maniçoba, caruru, assai com pirarucu frito churrasquinho e cerveja, muita cerveja, no coreto j
A tinha se apresentado o Pinduca dançando carimbo e mestre Verequeti e a banda do Mindico, que com o seu saxofone fazia a festa no coreto. Ai, apareceu perto da praça um carro preto.
Dá licença, dá licença, deixa o deputado passar!
E ele passou!, era o Jader Barbalho e o prefeito Hélio Papudinho!
Meus eleitores, eu não poderia deixar de comparecer nesta cidade, na grande festa do padroeiro, e nem podia deixar de prestigiar  o .......
E os sinos começaram a tocar, era o Padre Ângelo convidando para   e  a última noite de novena, e o povo do arraial deixou o deputado com o seu discurso e seguiu,  era muita gente, a polícia militar disse ser umas 800 pessoas,  mas,  um político do lado do deputado calculou de acordo com a sua experiência mais de 2 mil, e seguiu, não no rumo da igreja, mas começou a seguir pela Belém-  Brasília no rumo do rio Guamá, na direção da casa da Mãe Candoca, na frente  o Pinduca dançava e cantava o carimbo:
Gavião pegou a pomba.
Pegou a pomba no ninho.
É pena, meu mano e pena,
É pena de passarinho.

E o Pinduca se sacudia  na estrada e o povo acompanhava dançando e respondendo:
É pena meu mano, é pena
É pena de passarinha.
.
Atravessaram o rio, viraram para a direita, e seguiram para o terreiro da Mãe Candoca, todo enfeitado de bandeirinhas, e a negrada suada nos atabaques, vieram receber o Pinduca e botaram o mestre Verequeti na frente do congá, que também entoou um ponto, e o povão delirava no som frenético do carimbo, tendo a lua e as águas da cachoeira como testemunhas,


III



Diversas entidades do mundo encantado já haviam visitado o terreiro nessa noite na cabeça da Mãe Candoca; Cabloca  Jurema, Jarina, Seu Tupinambá, até duas crianças encantadas, Cosme e Damião, que quase acabam um kilo de pirulito, e agora, Verequeti cantava seu ponto e Mãe Candoca  atuada estava sentada na sua cadeira de Vime, tinha recebido seu Chapéu de couro, e estava dando consultas.
O Suplica, estava quieto sentado numa cadeira vestido todo de branco, calça branca, sapato branco, meia branca, uma camisa branca manga comprida que a Mulata  trouxe emprestada do Toninho do Areia, e um cinto feito com uma tira de setim azul, e o chapéu de panamá do mestre Nestor, por causa disso, a Maroquita tinha se desentendido e já queria bater na Mulata, porque estava achando o traje do Suplica esquisito, ela não concordava do Suplica andar nessas coisas de macumba, ela que era cantora da Igreja da Piedade, aluna da professora Órfila, jamais iria concordar com esse tipo de comportamento, e acusava a Mulata de ter trazido o Suplica pro terreiro, ainda mais com aquela roupa ridícula, que mais parecia um maricas.
Verequeti cumprimentou todo mundo, saravou quem era de sarava, abençoou quem era de abençoar, abraçou o Mindico, beijou a bochecha da Mulata, ralhou com a Maroquita e desceu para onde estava o Pinduca,  Mãe Candoca se levantou, foi no altar, cantou o ponto de despedida do Chapéu de Couro, e tremeu, tremeu muito, tremeu mais, e cantou:

Marinheiro,  marinheiro,
Quem te ensinou ,
quem te ensinou a nadar,
Foi o tombo do navio,
Ou o balanço do mar.

Aquela gente diz que sentiu gosto de água salgada na boca, só que o que eu sei, é que o Marinheiro Fernando chegou....
A cambona defumou, trouxe uma espada azul com uma âncora desenhada com linha branca e um quepe branco de marinheiro...
O  encantado cumprimentou a cambona e foi também cumprimentar a Serafina, que era a vidente, dizem que ela vê os encantados, ensinou um remédio pra sua dor de cabeça,  falou pra  Mulata não esquecer de alimentar o Tajá, e se dirigiu para o Suplica, Saravou e perguntou:
Como é marujo tás pronto? Eu só vim aqui para atender o Índio Velho, mas já vou me embora, que o meu negócio é ofichóa, tirou o chapéu de panamá da cabeça do Suplica e colocou na cabeça, e na cabeça do Suplica pôs o quepe de marinheiro, tirou a sua espada de setim azul, e colocou no pescoço do Súplica, recebeu outra de cor verde das mão da cambona, abraçou a Serafina  e cantou seu ponto de despedida, encostou a testa na testa do Suplica, e tornou a tremer, muito mais do que na chegada, nessa hora, desceu sobre São Miguel um tremendo aguaceiro, Mãe Candoca tremia, o Suplica começou a tremer também, e Mãe Candoca parecia ter desmaiado nos braços da cambona e da Serafina, e o Suplica, como que voou. Voou mesmo, por cima do parapeito da casa, e foi cair lá no meio do rio Guamá. Eram dez horas da noite, sexta feira, dia 13, a lua cheia estava na altura das onze, mas chovia, chovia a cântaros em São Miguel do Guamá.!

Mãe Candoca se recobrou, tornou a se atuar, foi defumada pela cambona, bebeu uma cuia  pitinga cheia de cachaça, repetiu, pegou sua pena e seu maracá, desceu a ladeira pra beira do rio, mas antes disse pro pessoal que fazia sereno:
Assim como ele foi, assim ele volta. Saravá  Ogum!


Km.40, abril de 2.010
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                     José Lopes Tavares
                        O “V